18 dezembro 2014

Os Jangadeiros lendários - a reprise



Conta-se que certa vez havia, numa ilha, um grupo de pessoas que se reuniam para debater assuntos da maior importância em sua comunidade. Essas reuniões eram promovidas no burgo na propriedade de um rapaz muito simpático, e que a todos tratava muito bem.


Este rapaz não era o dono da ilha, mas havia sido contratado como capataz, com carteira assinada, por um bondoso senhor que a arrendara ao rico proprietário, que vivia em terras estrangeiras.

A princípio, como havia poucas pessoas na ilha, o capataz trazia as questões que ele achava serem as mais importantes, ou seja, aquelas questões que ele achava que todo mundo devia tratar, saber e gostar. As reuniões eram interessantes, e por isso mesmo, a cada dia que passava, mais gente chegava para a reunião, e mais gente passou a morar naquela ilha.

Porém, com o aumento do número de pessoas e ideias, vieram também as discordâncias. O jovem capataz amava maçãs, e plantou uma infinidade de macieiras na paradisíaca ilha.

Muitas vezes as reuniões tratavam das últimas novidades em matéria de maçã: torta de maçã, doce de maçã verde, sorvete de maçã caramelada com poivre e outras delícias. Mas as pessoas que agora viviam na ilha haviam vindo de outras culturas, e gostavam de outras coisas. Havia quem defendesse a manga, quem gostasse de pera, uva, abacaxi, maracujá e outras muitas frutas.

Aos poucos, as pessoas começaram a plantar árvores destas outras frutas na terra administrada pelo capataz adorador das maçãs, que, a princípio, não ligou muito.Porém, quando as pessoas começaram a trazer receitas com outras frutas para as reuniões da comunidade, o capataz, achando estas discussões uma perda de tempo, viu que cada vez mais gente começou a gostar daquele assunto, e foi começando a se sentir sufocado, porque, a essa altura, ele já se considerava o dono da ilha!

De repente, ele passou a se sentir desmotivado, atrapalhado, quase inútil. Ora – pensou –, como podem essas pessoas virem aqui, no meu burgo, na minha casa, na minha reunião, e ousar tratar de assuntos que não são do meu interesse? São assuntos que não dizem respeito a esta comunidade, que eu criei! Como ousam discordar de minhas importantes e precisas opiniões? Como ousam depreciar minhas amadas maçãs, que cultivo com tanto amor e carinho?

As pessoas começaram a notar que seu comportamento havia mudado. Aquele jovem, antes simpático e acolhedor, de repente se convertera em alguém rancoroso, pronto para explodir, e que absolutamente não aceitava qualquer discordância em relação a seus pontos de vista.

Um dia, após uma violenta discussão por um assunto banal, aquela triste figura, para assombro de todos, decidiu expulsar algumas pessoas de sua ilha.

Algumas pessoas da comunidade ainda tentaram interceder, mas o jovem estava cercado de acólitos dispostos a defendê-lo ferrenhamente. Um dos seus maiores defensores, bastante ligeiro, lançou aqueles pobres banidos no mar, lançando-o do alto da Falésia do Firewall, de onde seria impossível que regressassem.

Mesmo em meio à tormenta das ondas, nossos heróis sabiam que aquela situação colocava em risco toda a comunidade. Com muita dificuldade, eles intrepidamente nadaram até a costa, subiram a encosta escarpada e confrontaram o jovem e impetuoso capataz.
Este, muito surpreso, mandou, ligeirinho, novamente lançá-los ao mar. Eles ainda retornaram por algumas vezes, sempre com o mesmo resultado.

Por fim, estes renegados acharam no mar uns restos de madeira. Eram os restos de uma antiga ponte, construída pelo proprietário americano, que ligava o continente àquela ilha. Lembraram-se, então, de que o capataz mandara destruir a ponte, porque não queria intervenções de terceiros na sua ilha.

Munidos de muita coragem e determinação, os banidos construíram uma embarcação estrategicamente construída com os restos da ponte que ligava a ilha ao mundo, para lembrar àquele jovem e impetuoso capataz que:

a)   Ele é um capataz contratado, e não proprietário (e nem mesmo arrendatário);
     
b) O proprietário da ilha gosta de outras frutas e tem interesse em que mais pessoas tenham acesso à sua propriedade. Ele não gostaria de saber que o capataz botou a ponte abaixo e que começou a jogar pessoas para fora da ilha. Talvez nem mesmo o arrendatário goste de saber disso; e

c)    Se ele jogar a todos no mar, a ilha ficará vazia.

Dia e noite, aquele jovem capataz e seus asseclas vigiam a ilha, lançando uma média de 2 pessoas por semana ao mar, de cima da Falésia do Firewall, em sua fúria lancinante, com sangue nos olhos, em sua busca por paz interior.

Mas, para seu desgosto, seus momentos de triunfo têm pouca duração, e toda a comunidade pode vê-lo rilhando os dentes de raiva cada vez que um dos banidos é resgatado pela Jangada dos Renegados.

Para os banidos, a jangada representava salvação. Na visão do infeliz e burguês capataz, ela representava um navio de guerra.

* esta é a reprise de um post que criei em 08/03/2012 na finada Jangada dos Renegados.
Os objetivos da reprise são 2:

1. para vocês relembrarem ou terem uma noção de como a coisa já foi feia lá naquele blogue morto; e
2. Para vocês terem mais espaço pra comentar mais bobajada! XD

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